
O texto abaixo é de minha autoria, Smaily Prado. Escrevi-o inspirado pelo texto “Só porque criou o mundo pensa que é Deus”, de Henrique Szklo; e de uma conversa com um colega de trabalho.
Aliás a Academia de Criatividade e o Ópera Bufa são sites que vocês deveriam conhecer. O primeiro é bem criativo e o segundo é muito engraçado! E não deixe de conferir as Camisetas Autodestrutivas do Doutor Carneiro, são ótimas!
Segue o meu texto:
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No Princípio era a Matemática…
Por Hum-Ano Indignado.
Antes mesmo de Deus existir, a Matemática já existia. No princípio de tudo eram números. Quando ocorreu o Big Bang, que foi um erro numa fórmula matemática gigantesca, a explosão formou Deus pelo embaralhamento de algumas funções muitíssimo complicadas.
O fato é que Deus viu-se sozinho no espaço, sem mais nada para fazer além de observar fórmulas matemáticas, equações, funções e matrizes flutuando no Universo Vazio. Decidiu então aprender a utilizar a Matemática para criar alguma coisa.
Começou criando estrelas, ou sóis, se preferir. Porque elas eram relativamente (pois tudo é relativo, até a Matemática) fáceis de criar. Precisava-se apenas de alguma geometria (para fazer a esfera), alguns cálculos de energia bem simples (E=MC²) e algo de movimento. Escolher o local onde ela ficaria e pronto! Estava pronta uma estrela novinha brilhando alegremente (figurativamente falando, porque uma estrela não fica “alegre”) no espaço.
Ele (Deus), criou muitas e muitas estrelas até que enjoou. Já estava de saco cheio de fazer “estrelinhas”, queria algo diferente agora. Então baseada na fórmula da estrela, retirou o brilho e começou a inserir pequenos cálculos dentro do cálculo maior da esfera, o que resultou em diversas modificações tanto na superfície da esfera quanto em seu interior. Assim que finalizou esta esfera modificada, sentiu-se muito satisfeito e então parou, por algumas centenas de anos (que para Ele foram minutos) e traçou um Plano Grandioso em sua mente.
Dentro desse Plano Grandioso, haveriam estas esferas modificadas e sem brilho, que chamara de Planetas, por serem Planos Pequenos (que mais tarde conteriam outras fórmulas do seu Plano Grandioso, mas em menor escala).
Fizera incontáveis Planetas. Colocou-os em seus lugares, com muito cuidado e observou sua obra. Via os Planetas e as Estrelas girando sob si mesmos no mesmo lugar, enquanto as fórmulas matemáticas flutuavam para lá e para cá, sem ordem nenhuma, mas com bastante movimento. Teve a idéia de colocar suas criações esféricas para rodar. Mas rodar para onde? E com que intuito. Refletiu mais algumas centenas de anos (lembre-se: eram segundos para Ele). Chegou à conclusão de que os Planetas rodariam em volta das Estrelas, pois quando as luzes das estrelas batiam nas superfícies dos Planetas, refletiam imagens disformes no negro Universo, deixando-o “bonitinho” igual quarto de criança. As imagens refletidas giravam e giravam, entretendo Deus por milênios (que para Ele eram apenas horas).
Mas (como era de se esperar) Ele se cansou do gira-gira das luzes e continuou seu plano.
Você deve estar se perguntando? E quando Deus criou as Luas? Há! Deus não criou as Luas! Pelo menos não propositadamente. As Luas, assim como os asteróides, são restos de Planetas que explodiram quando Deus errava os cálculos matemáticos e não queria ficar procurando onde estava a falha. Ele deixava tudo flutuando no espaço. Não se importava com a sujeira do local (também pudera, Ele não tinha mãe pra reclamar da sujeira e mandar Ele limpar!).
Deus começou a trabalhar na parte mais interessante de seu Plano Grandioso: Seres Vivos. Começou com cálculos simples, funções de primeiro grau, e assim conseguiu protozoários e amebas. Acrescentando funções de segundo grau, criou insetos. Aumentando o tamanho dessas funções, conseguiu animais. Pela variação de X e Y elaborou vários tipos de animais, até que começaram a ser tantos que teve que criar classificações para encontrá-los com maior facilidade. Esses Seres Vivos foram colocados em vários Planetas. Mas eles não duravam alguns dias (que para Ele eram milésimos de segundo) e morriam. Várias e várias vezes Deus revisou seus cálculos várias e várias vezes. Não encontrou nenhum erro em seus cálculos. Porém, percebeu que a fórmula que havia criado os Seres Vivos era uma fórmula finita, ou seja, ia se desgastando rapidamente até sumir.
Realizou, inúmeros teste com outras fórmulas, mas aquelas eram as únicas que faziam Seres Vivos da forma como queria. No princípio se entristeceu com o problema que não seria resolvido. Depois, começou a sentir alegre novamente. Teve uma idéia! Talvez se a fórmula fosse constantemente reforçada os Seres Vivos viveriam mais! Foi disso que surgiram os alimentos, ou melhor, foram matematicamente calculados para reforçar, ou seja, realimentar a fórmula dos Seres Vivos, mantendo-os vivos por um tempo maior (que para Deus era ainda muito pouco, mas que proporcionalmente ao tamanho dos seres vivos, era suficiente).
Precisou ensinar aos primeiros seres a importância de absorverem (comerem) as Fórmulas de Reforço (alimentos). E assim, foi gerenciando vários Planetas, que de vez em quando paravam de girar ao redor das Estrelas, tendo que rever ou fazer ajustes em seus cálculos para voltarem a girar.
Acompanhava cada Ser Vivo do Universo, cada Planeta, cada estrela. Não entendia como, mas de alguma forma, todas as fórmulas matemáticas estavam encadeadas, como uma teia de aranha colossal feita de cálculos matemáticos.
Passados alguns anos (que para Ele eram segundos) percebera que o número de Seres Vivos estava diminuindo e ele começava a ficar chateado por precisar calcular mais e mais Seres Vivos. Voltou a seus estudos e cálculos, fez pequenos ajustes nos Seres vivos para que eles pudessem, ao combinar suas fórmulas (em casais – foi aqui que ele diferenciou macho e fêmea), produzirem novos Seres Vivos, com fórmulas novas, sem que Ele precisasse desenvolver mais e mais animais. Agora eles se renovavam (reproduziam) por conta própria.
Ficou muito contente com sua inovação que tirou algum tempo para observar suas criações e relaxar.
O tempo foi passando, passando… Decidiu trabalhar num Pequeno Projeto (Planeta) específico. Escolheu aquele que mais lhe agradava, bem, na verdade, era o centésimo quadragésimo sexto que mais lhe agradava.
Nomeou-o Terra (sem nenhuma razão aparente… acredito que esse era o primeiro sinal do surgimento da intuição de Deus). Sentara próximo ao pequenino Planeta (a Terra) e mergulhara no projeto: Criar um ser pensante.
Trabalhara dois meses, em Sua contagem de tempo. O resultado fora um Ser com olhos na frente e atrás, cinco braços, três pernas, uma orelha, três bocas e vários orifícios espalhados pelo corpo e não tinha cabeça. Foi um fracasso. O Ser pensava, mas não tinha equilíbrio para ficar em pé, nem para realizar atividades simples de absorção de Fórmulas de Reforço (alimentos). Precisaria simplificar o design do Ser e sofisticar sua capacidade “pensatória”.
Simplificara o design, complicara as fórmulas para elaborar a capacidade de raciocínio do Ser, para pensar por si próprio. Demorara UM ANO INTEIRO, na Sua contagem de tempo, para criá-lo. E por isso chamou-o de Ser Hum-Ano. Mais tarde resolveu abolir o hífen do nome do Ser, porque era muito chato ficar escrevendo aquele “tracinho” bobo. Chamando-o, então, de Ser HUMANO.
Fora o Ser mais complexo que conseguira criar, tivera que utilizar quase toda a matemática existente e ainda inventar algumas outras. Foram inúmeros logaritmos, derivadas, matrizes, inequações (para realizar imperfeições propositais), funções de segundo, terceiro, quarto, até décimo grau! Utilizou também a matemática “discreta”, vários teoremas, geometria diferencial, trigonometria e muitos outros tipos de cálculos que não consigo entender e por isso não direi nada, afinal, se EU, que sou PROFESSOR DE MATEMÁTICA aqui na Terra, não entendi, que dirá VOCÊ!
Resumindo, pra finalizar, hoje Deus vive a “brincar” com nossas míseras vidas. Divertindo-se com nossas escolhas, nossas idiotices, nossas crendices e tudo o mais. (pra isso Ele inventou Causa e Efeito, Teoria do Caos, Lei de Murphy e por aí vai).
Estamos entretendo-o até que Ele canse de nós e invente outra coisa para passar o tempo.
Ultimamente Ele tem feito outros Seres Vivos e colocado-os para voar ao redor da Terra e às vezes até pousar, divertindo-se com nossa surpresa em ver seres extraterrestres. Outra PALHAÇADA que Ele anda fazendo é deixar que as imperfeições no Planeta que ELE fez fiquem a nos matar aos milhares! Ou você acha que os vulcões em erupção, os maremotos e tsunamis, além das doenças e pragas são resultados concretos de fórmulas matemáticas bem estruturadas? Deixa de ser besta! Tem um monte de falhas nesses cálculos que Ele fez. Eu mesmo já revisei alguns e, pelo amor DELE! Será que ELE não podia ter ESTUDADO MAIS?
Creio que as crianças de hoje em dia não gostam de matemática porque ELE não estudou TUDO o que tinha que estudar! Agora elas usam isto como desculpa: “Ah Prôfi, nem Deus conseguiu aprender direito essa “coisa” aí, QUEM SOU EU para tentar?”
Daí você me pergunta: “Onde esse mundo vai parar?”, e eu digo: Vai parar num ERRO nessa MERDA de Equação Universal que vai acabar sendo encolhida, simplificando-se naturalmente até ficar do tamanho de uma AMEBA e então irá explodir novamente. Acabando com tudo o que existe hoje, até com Deus. E então nesse momento, espero que a próxima “CRIATURA” que for a primeira a existir, tenha a CONSCIÊNCIA de que o ESTUDO é fundamental para fazer as “coisas” funcionarem PERFEITAMENTE! Tchau!
Hum-Ano Indignado é Professor de Matemática da USP e um dos poucos Seres humanos que se aventuram, neste ano de 2158, a continuar estudando e ENSINANDO a Matemática.
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Um abraço!