JOGOS TEXTUAIS – Luminus Obscuri – Parte III…

Publicado: 5 abril 2009 em Contos, Jogos Textuais
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Se você ainda não leu a Parte I, clique aqui (Expressionando).

Esqueceu de ler a Parte II? Então, clique aqui (Blackbird).

Segue a Parte III:

 

Minha mente fervilhava enquanto seguia em direção ao hospital. Uma doença rara, talvez? Algum distúrbio momentâneo de falta de pigmentos luminosos? Algum médico descobriria e logo meu corpo estaria iluminando todo meu caminho novamente.

Consigo me locomover com certa tranqüilidade, utilizando a luminosidade dos outros. Pareço um parasita, dependendo da habilidade de outrem para sobreviver. Chego ao hospital. Percebo os olhares atravessados e os sussurros de espanto: “…ele não tem luz…”, “…deve ser alguma doença…”, “…pode ser contagiosa…”.

Solicito um médico. A recepcionista mal consegue olhar para mim, de tanto medo. Sinto como se, estando sem luz, além de ser uma aberração, todos possuíssem a capacidade de enxergar as falhas de minha personalidade. Estou mentalmente despido.

O médico aparece rapidamente após a recepcionista explicar-lhe a “gravidade” da situação. Espantado, mas com a curiosidade científica inerente aos profissionais da área, ele me examina, tomando muito cuidado, afinal, pode ser contagioso.

“Vou precisar de uma amostra do seu sangue e da sua pele, para realizar alguns testes. Ainda não posso afirmar nada sobre sua condição. Aguarde alguns minutos aqui, uma enfermeira virá para coletar as amostras e, se possível, peço que você aguarde os resultados”, diz o médico, saindo da pequena sala de consulta e me deixando na completa escuridão, sem ao menos perceber que o fizera.

Pouco tempo depois, chega a enfermeira, devolvendo a luz ao pequeno ambiente. Agulha entrando na pele. Sangue coletado. Uma esponja raspando na pele. Células epidérmicas coletadas.

Ela sai, mas antes vira-se, seu rosto expressa pena, ela ensaia dizer algo. Desiste. Sai apressada. Eu fico na escuridão novamente.

Por que somos tão dependentes assim da claridade? Por que ao invés disso, não evoluímos para seres com visão noturna? O Criador do Cosmos parece brincar conosco, fazendo experiências, vendo até onde conseguiremos chegar com habilidades de segunda mão.

Não sei quanto tempo se passou desde que a enfermeira saíra com as amostras. Não consigo consultar um relógio. A escuridão parece ser atemporal. É como estar congelado no tempo somente observando o mundo ao redor avançar.

“Tenho uma boa e uma má notícia. Qual o Senhor gostaria de saber primeiro?”, diz o médico entrando na saleta e iluminando-a.

Escolho a boa primeiro, pois sei que após ouvir a ruim, esta sobrepujará aquela, tornando-a insignificante.

“Seu sangue e sua pele estão ótimas!”, essa era a boa. E a ruim: “Infelizmente não sabemos o que você tem”.

Ele me entrega um cartão, de um psicólogo, diz que esta condição tão atípica, quem sabe, pode ter sido provocada por algum motivo de fundo emocional.

 “Posso arranjar alguém para te acompanhar pela cidade, para que não tenha que andar no escuro”, diz ele. Foi muita gentileza da parte dele.

Eu recuso a oferta. Sei cuidar de mim mesmo. Além do mais, começo a gostar da escuridão. Era melhor que ser alvo de olhares atravessados.

Volto para a rua. Caminho desviando do raio de ação da luminosidade dos transeuntes. Começo a sentir uma repulsa à claridade. A cada minuto que passo na escuridão, percebo-me mais à vontade, mais confiante e seguro, ao mesmo tempo que sinto não mais pertencer à esta sociedade tão… luminosa.

 

Continua no Blackbird – Luminus Obscuri – Parte IV…

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comentários
  1. Marcell disse:

    Acompanhando!

  2. Rimadora disse:

    tb tô acompanhando….tá ficando bão!

  3. Lilian disse:

    Tá cada vez melhor isso!!!!! Parabéns novamente!

  4. beta disse:

    Continua muito bom
    e ainda acho a história muito interessante e significativa!

  5. Smaily Prado disse:

    Valeu pessoal!

    A quarta parte já está no Blackbird!

    Abraços!

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