Velho Medo

Publicado: 26 fevereiro 2010 em Contos, Livros

Enviei um miniconto para o concurso de minicontos do site Estronho e Esquésito. Estou colocando aqui o conto como foi concebido e depois as duas alterações e reduções pois o concurso exigia que ele tivesse no máximo 15 linhas. É um exercício bacana tentar colocar uma história em apenas 15 linhas. O tema do concurso é “O monstro debaixo da cama“. Os 3 primeiros colocados ganharão vários livros de autores de ficção científica e fantasia brasileiros.

Se você gosta de escrever, participe!

Abaixo segue o meu miniconto nesta ordem: primeira idéia, primeira redução e alteração, segunda redução/versão final.

VELHO MEDO (primeira idéia)

“Boa noite, meu anjo”, disse minha mãe ao me colocar pra dormir. Limitei-me a sorrir amarelamente pra ela. Odiava quando me chamava de “anjo”. Afinal, eu já estou com trinta e sete anos! Deitado na minha velha cama de infância, mal ela apaga a luz e já ouço antigos sons, dantes esquecidos, sob a cama: grunhidos, algo afiado raspando uma superfície lisa, mastigações grotescas. Mas hoje estou aqui para enfrentar tudo isso. Levanto e suspendo a cama. O que vejo no chão me surpreende: uma escada para algum lugar no subsolo. Desço. Está escuro, mas ao pé da longa escada existe uma parca luminosidade. No final da escada, um imenso salão. Sucatas espalhadas por todo o lugar. “Olha! Minha bola de futebol!” constato estupefato onde fora parar minha bola perdida a tantos anos. Olhando mais atentamente, vejo outros tantos brinquedos que perdi durante minha infância: armas de brinquedo, bonecos de ação, peças de montar, bolas, peças de quebra-cabeças. Lá no fundo do grande salão avisto um vulto de pé, bastante encurvado, apoiado numa bengala. Aproximo-me. Uma criatura horripilante para uma criança: gosmas saindo do corpo, garras nos pés e nas mãos, asas de barata, rabo de escorpião, cabeça de cobra, dentes de tubarão. ”Você parece… velho”, digo, com certa surpresa, à ele. “Estou morrendo” disse ele, com sua voz gutural. “Você não mais tem medo de mim, não posso mais me alimentar do seu medo e sem ele, meu fim se aproxima” disse ele um tanto melancólico. “Você está certo. Fui atormentado seguidas noites por você durante anos, mas quando fui morar sozinho, você não pode mais me assustar e fui ganhando confiança para chegar neste dia, encontrá-lo e enfrentá-lo”, faço uma pausa, ele parece não querer dizer nada. “Entretanto, isso não será necessário. Ao que me parece, dentro de pouco tempo você não mais existirá”. Ele aproximou-se lentamente até ficar face a face comigo. Não senti medo algum. Ele me abraçou e disse “Obrigado”. Então senti o peso de todo o seu grande corpo sobre mim. Ele estava morto. Acordei em minha cama, o dia já havia raiado. Levantei e suspendi a cama. Não havia mais escada. Meu velho medo não me atormentaria nunca mais. Mas há uma coisa que não compreendi: “Por que ele me agradeceu?”

VELHO MEDO (primeira redução e alteração)

Perdi esposa e filho num acidente. O banco tomou minha casa. Hoje voltei para a casa de meus pais. Trinta e sete anos na cara e ter que voltar pra casa dos pais. Apago a luz e deito na minha velha cama de infância. Ouço antigos sons, dantes esquecidos, sob a cama: grunhidos, algo afiado raspando no fundo da cama, mastigações grotescas. Perdi tudo, mas não vou deixar um velho medo me abater. “Resolverei isso agora!”. Levanto e suspendo a cama. O que vejo no chão me surpreende: “Uma escada!”. Desço. Está escuro. Ao pé da longa escada existe uma parca luminosidade. Desço o último degrau. Há um grande salão. Sucatas espalhadas pelo lugar. “Olha! Minha bola de futebol! Meus bonecos de ação e peças dos quebra-cabeças que eu nunca conseguia completar!”. Parece que todos meus brinquedos perdidos vieram parar aqui. No fundo do salão avisto um vulto de pé, bastante encurvado, apoiado numa bengala. Aproximo-me. Uma criatura horripilante: gosmas saindo do corpo, garras nos pés e nas mãos, asas de barata, rabo de escorpião, cabeça de cobra, dentes de tubarão. ”Você parece… velho”, digo, com certa surpresa à ele. “Estou morrendo” disse ele, com sua voz gutural. “Você há medo dentro de você, sem o seu medo não consigo continuar vivendo, seu medo é o meu alimento” disse ele, melancólico. Ele aproximou-se lentamente até ficar face a face comigo. Não senti medo em nenhum momento. Ele me abraçou e disse “Obrigado”. Então senti o peso de todo o seu grande corpo sobre mim. Estava morto. Acordei em minha cama, o dia já havia raiado. Levantei e suspendi a cama. Não havia mais escada. Meu velho medo não me atormentaria nunca mais. “Mas por que ele me agradeceu?”

VELHO MEDO (segunda alteração/versão final)

Trinta e sete anos. Perdi esposa e filho. O banco tomou a minha casa. Voltei para a casa de meus pais. Apago a luz e deito na velha cama de infância. Ouço antigos sons sob a cama: grunhidos, garras raspando a cama, mastigações. Não vou deixar mais esse velho medo me assustar. Levanto e suspendo a cama. “Uma escada sob a cama!”. Desço. Está escuro. Chego ao último degrau. Há um grande salão mal iluminado. “Olha! Minha bola de futebol! Meus bonecos de ação e peças dos quebra-cabeças que eu nunca conseguia completar!”. Parece que todos meus brinquedos perdidos vieram parar aqui! No fundo do salão há um vulto, bastante encurvado, apoiado numa bengala. Aproximo-me. Uma criatura com gosmas saindo do corpo, garras nos pés e nas mãos, asas de barata, rabo de escorpião, cabeça de cobra e dentes de tubarão. ”Você parece… velho”, digo surpreso. “Estou morrendo” disse ele, com sua voz gutural. “Não há medo em você, sem o medo não vivo, o medo é meu alimento.” disse ele melancólico. Ele aproximou-se lentamente até ficar face a face comigo. Abraçou-me, disse “Bons sonhos” e morreu. Acordei embaixo da cama.

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comentários
  1. João carlos disse:

    nossa muito legal smaily
    um pequeno conto,uma grande ideia

    legal…

    bração

  2. Smaily Prado disse:

    Valeu João Carlos!

    Gostei da sua frase: “Um pequeno conto, uma grande IDEIA.”

    Um Abraço!

  3. Augusto disse:

    Cara, muito legal seus contos, lembro que tinha lido alguns ha um tempo atrás. Tinha um de um cara que pulava pela janela do escritório, era um esquema de demissão voluntária. Humor e sarcasmo ao mesmo tempo.

    Esse do “Velho medo” já tem outra pegada, e muito legal ver o processo de construção, ele ir reduzindo. E, sinceramente, o “bons sonhos” do final fez todo o sentido. (melhor do que o “obrigado”, em minha opinião) Ficou muito bom mesmo.

    Parabéns cara! Muito bom ler seus contos.

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