O Escritor – Cena 01 – Monitor…

Publicado: 8 janeiro 2011 em Contos

Há horas encontrava-se sentado numa desconfortável banqueta em frente ao monitor translúcido. A banqueta estava mais para assento improvisado que móvel adequado para repousar as nádegas. Estas começaram a reclamar de dor e incômodo duas horas atrás. Agora, nem as sentia mais.

Branco. Blecaute albino. O terror dos iniciantes na arte (ou ciência) da escrita. Falta de inspiração. Ausência temporária de imaginação. As teclas virtuais ainda permaneciam ativas na mesa-tela sensível ao toque. No monitor, o cursor ainda piscava ansioso pela ordem do teclado para produzir textos, idéias e imagens literárias fantásticas.

Nada acontecia. Havia minimizado o editor de texto. Navegava na internet em busca de inspiração, a procura de um insight, de um “click” mental que lhe devolvesse a motivação para mergulhar novamente no mundo da escrita, da digitação desenfreada, do vômito de palavras, do jorro de idéias.

Zero. Conseguiu achar muitas imagens bonitas, desenhos cativantes, outros atraentes, alguns horripilantes e outros engraçadinhos.

Insônia. Também parceira nessas horas. A inquietação perante os problemas financeiros tirava-lhe o sono. Dívidas, dívidas, dívidas. Contas, água, luz, telefone, internet… Fim do dinheiro. Se a inspiração não voltasse, como terminaria seu livro? Precisava desesperadamente terminar o livro que nem começara!

Olhos ardentes e coluna casada. Noite longa e improdutiva. E quente. Que noite calorenta. Abriu sites de empregos temporários, trabalhos meio expediente, freelances. Revisor de Textos. Interessante. Bom de português, sempre encontrando erros nos textos alheios. Poderia trabalhar com isso. Requisitos… Graduação em Letras. Era formado em administração… Experiência na área… Só se contarem os textos lidos em blogs e revistas e os erros encontrados durante essas leituras… Expediente na empresa… Procurava algo para trabalhar em casa, à distância, odiava ter que sair no mundo lá fora.

Enquanto isso, o cursor ainda permanecia intermitente, lá no editor de textos minimizado.

Cansou-se. Quatro da madruga. Desligou o computador. O monitor translúcido se apagou, parecendo não mais que uma placa de vidro espessa. O teclado se apagou da mesa-tela. Tudo escureceu. Iria deitar-se. Dormir, vencido pelo cansaço. Sem idéias, sem escrita, sem emprego complementar. Repleto de dívidas.

 

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