O Escritor – Cena 02 – Dores…

Publicado: 9 janeiro 2011 em Contos

Acordou com dores infernais nas costas. Coluna pós-atropelamento. Ao menos era isso que lhe parecia. Também não sentia seu braço esquerdo. Sabia que ele estava ali, contudo não o sentia em sua totalidade. Pedaço de carne inerte. Com o braço direito, moveu o braço esquerdo. Levantou-se da cama com a dificuldade que a preguiça impõe ao ser humano e no ritmo que as dores na coluna lhe permitiam.

Caminhara até a sala, gemendo. Sentou-se no sofá e descobrira que além de não sentir o braço esquerdo e a coluna estar em frangalhos, sua barriga doía. Após apertar vários pontos da mesma, atestara sua condição. Gases. Flatulência, peido. Medicação, eliminar os gases tóxicos interiores. Preparação para a medicação, concentração. Perceber o momento. Algo crucial na hora de eliminar este vilão abdominal.

Permaneceu por tempo indeterminado olhando para o nada, pensando no que fazer. Estava “zumbizando”. A alma deixara-lhe o corpo, temporariamente, até que escolhesse seu próximo passo. O sono também o abandonara. Na verdade, este havia perdido, porém não o procuraria, deixaria voltar por vontade própria, afinal era um farrista esse tal sono.

Lembrara que a pouco sonhava com preocupações econômicas a respeito de uma cidade próxima e com absurdos envolvendo parentes. Aos poucos os movimentos do braço voltavam. Já podia sentir os dedos. A sensação era de ter um tronco com um único braço e cinco dedos que flutuavam próximo ao corpo. Estranho.

Talvez os gases tenham sido efeito do suco de laranja com acerola que tomara ontem ao entardecer. Suco horrível. Nunca gostara de acerola. Outra possibilidade seria a quantidade de tempo sem comer qualquer coisa. Era o mais provável. Altas horas sem se alimentar ocasionava-lhe gases, dos piores. Dos mais doloridos.

Alguns flatos liberados depois…

Decidiu procurar algo pra comer e tentar novamente vencer o bloqueio mental de escritor. Sentou na frente do computador com um prato de comida, abriu o editor de texto. Prontamente o cursor apareceu intermitente, ansioso novamente por atividade. Que não aconteceu.

Olhou para o teclado na mesa-tela. Como era um teclado bonito. Todo negro, com as letras e as linhas que delimitavam as teclas em branco levemente azulado. Bacana era o recurso de poder escolher qual a fonte das letras no teclado. O padrão era “Arial”. Trocou para uma “Times New Roman”. Muito careta. Queria algo mais moderno, mais inspirador. “Georgia”, talvez. Tinha um efeito legal nos números, “1 2 3 4 5 6 7 8 9 0”, ficavam todos desalinhados. Passou um tempo a testar as fontes. No final, deixara a “Viner Hand ITC”, mais por cansaço que por gosto.

E o cursor lá parado, aguardando. A comida no prato, intocada. A dor nas costas, excruciante. O bloqueio literário, torturante. E uma musiquinha infantil que não desgrudava da cabeça: “Polca do ominhoco… cante comigo a polca!

 

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