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“Não sou deus algum!”, digo indignado. “Se você não é um deus, então por que acha que perdeu sua luminosidade e mesmo assim conseguiu sobreviver? Por que acha que consegue ver o que mais ninguém vê? Por que você acha que sente a natureza ao redor e a entende? Meu caro irmão, é chegada a hora de você voltar a ser quem realmente é para finalmente reparar seu grande erro”, Nanki deu um passo em minha direção e, mais rápido do que pude ver, colocou a mão esquerda sobre minha testa.

Depois disso o que vi foi um turbilhão de imagens e conversas…

… Estou apagando a chama de uma imensa esfera com um sopro frio…

… Nanki puxa para si mesmo o resto de chama que não se apagou…

… “QUE FOI QUE VOCÊ FEZ, IKATKI?”…

… vejo um mundo completamente imerso na escuridão…

… mas está repleto de pessoas tristes, tentando sobreviver no escuro…

… Nanki olha pra mim com raiva e dó ao mesmo tempo…

… Nanki está descendo ao planeta, vai entregar a chama do globo às pessoas…

… vejo agora um mundo repleto de pontos brilhantes, acho que são os Lumini…

… “…viverá entre eles para perceber o problema que causou”…

… “…dois mil anos voltarei para ver se compreendeu”…

Tempo presente. Caio sobre meus joelhos, desfazendo-me em lágrimas que não posso conter. Todas aquelas pessoas egocêntricas e mesquinhas, enxergando apenas metros à frente de seus umbigos, vivendo com extrema dificuldade. E tudo pelo meu ato egoísta.

Minhas mãos tocam a terra virgem da montanha que nenhum deles viu. Sinto através do Obscuri, toda a tristeza que causei ao apagar Solari, a esfera incandescente. Levantando-me, digo a Nanki “Sei o que devo fazer, irmão”. Ele, silenciosamente, apóia minha decisão e deixa escapar uma lágrima em seu rosto luminescente.

Dou-lhe um grande abraço, com a ternura e carinho que existe entre dois irmãos e neste ato, toda luminescência dele é transferida a mim. Levanto vôo, deixando-o lá embaixo. Ultrapasso a barreira do som. O vento toca cada centímetro da minha pele, a sensação é maravilhosa. A esfera apagada, antes chamada Solari, aproxima-se cada vez mais, mais, mais e mais até que meu corpo choca-se com o grande corpo celeste.

“Este é o fim de Ikatki, meu querido irmão. Todavia, é o início de uma nova era para Obscuri. Com Solari incandescente outra vez, a vida seguirá como deveria ter sido a dois mil anos”, Nanki termina a frase repleto de felicidade pelo mundo e infelicidade por seu irmão deixar de existir, dois sentimentos antagônicos coexistindo, assim como seu irmão foi, um Luminus por fora e um Obscuri por dentro… Luminus Obscuri.


FIM


Chegamos ao final da Saga de Ygor Slatvorg. Mas espera, não vá embora ainda! Domingo ainda tem a última parte:

Um epílogo de

Luminus Obscuri

no Blackbird

 

Gostaria de agradecer ao Edu, do Blackbird, por ser minha cobaia neste primeiro Jogos Textuais! Valeu Edu! Foi uma ótima parceria!

E gostaria de agradecer a todos que acompanharam a história até aqui! Fiquem atentos, em breve haverão mais Jogos Textuais!

Um abraço a todos!

 

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Desculpem a demora. Tive um final de semana agitado. Um abraço a todos e obrigado por continuarem aparecendo por aqui! 

OBS.: Leia as partes anteriores deste conto aqui no Expressionando e no Blackbird

 

Ouço um rugido, despertando-me de meus devaneios sobre deuses e lendas. É meu estômago. Estou a horas, talvez dias – não sei bem ao certo – vagando por este novo mundo que se descortina escurecido diante de meus olhos, que esqueci-me de algo básico.

Já nem sei mais como voltar para casa. Também não sinto vontade de regressar. Procuro alguma árvore que possa me oferecer seu fruto escuro para saciar esta fome que me aplaca.

Algo impressionante na escuridão é que outros sentidos, como olfato e tato se aguçam. Minhas mãos alcançam o que parece ser o tronco se uma árvore. Sinto, na ponta de meus dedos, as rachaduras e ranhuras do caule. Detenho-me mais alguns segundos, apenas sentido e percebo que a palma da minha mão pulsa intermitentemente em direção ao alto, tenho a sensação de que isto é a vida que corre dentro dela.

Suavemente um odor chega até minhas narinas. É um odor doce e ácido. Esta planta tem frutos!

Sigo o doce cheiro até alcançar algo macio e esférico. Peço à árvore, por gentileza, que me dê este fruto. Sem que faça esforço, ouço o fino galho que a prende ao fruto se romper. Agradeço com todo o coração.

Dou uma mordida. A casca é mole, mas azeda. Jogo fora. Depois várias e várias vezes depois retiro a casca e jogo fora, restando apenas o interior. Separo os gomos e, um a um, vou degustando-os. É uma laranja! E tão docinha!

Ao terminar, sinto-me revigorado para continuar com minha caminhada exploratória. É como fazer uma refeição completa. Como é possível? Apenas um fruto saciar toda minha fome e deixar-me repleto de energia? Será que a proximidade com a natureza nos distância da gula humana? Talvez.

Ouço um barulho na mata. Instintivamente volto meus olhos para onde viera o barulho tentando enxergar algo. Percebo que uma parte da escuridão se mexe. Dois pontos brancos brilham num relance. Meu coração acelera! Pareciam olhos! Existe mais alguém sem luminosidade neste mundo? “Quem é você?”, digo em voz alta sem receber resposta.

Ouço o vulto negro dentro da escuridão se mover. Ele está correndo. Vou atrás dele. “Pare, vamos conversar!”, grito, mas ele não pára.

Estamos há horas correndo. Passamos por alguns riachos. Subimos uma montanha. Vejo-o parado lá no topo. Em poucos segundos o alcanço.

Estamos frente a frente. “Meu nome é Akin…” – disse o vulto e ao  pronunciar seu nome, o brilho branco de seus olhos deu lugar à um corpo incandescente – “…E temos muito o que conversar, Ikatki”.

 

Continua…

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Leia antes: Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV.

Desculpem-me pela demora, Feliz Páscoa e boa leitura!

 

A sessão com o psicólogo não rendeu nada. Segundo ele, eu teria que retornar mais vezes para que pudesse confiar nele e mostrar meu “Eu Inconsciente”. Besteira! Se não tem capacidade para “ler as pessoas” procure outra profissão! Não volto mais lá.

Fui até uma praça. Meus olhos fixaram no ponto onde, creio eu, a água estaria. Passou-se algum tempo. Meus olhos divisavam algo. Havia um brilho frio onde estaria a água da fonte. Era um brilho frio, cristalino e oscilante. Era lindo! Nunca vira um brilho tão fascinante! Logo percebi o contorno circular da fonte. O que estava a brilhar era nada menos que toda água ali contida! Fiquei a refletir sobre quantas belezas do mundo são ofuscadas por nossa luz interior. Quanto ainda desconhecemos acerca do que nos rodeia?

Saio apressadamente em busca de novas descobertas. O que mais o mundo tem para me mostrar? Caminho com certa facilidade. Meus olhos parecem, agora, divisar as coisas na escuridão, como se cada uma delas fosse constituída de menos ou mais escuridão, formando contornos negros e menos negros, ou bem negros, na escuridão. Paro ao lado do córrego que corta a cidade. Brilha frio e cristalino tal qual a fonte. Mas esse brilho não deve ser intrínseco da água, senão alguém já teria percebido. Deve haver alguma fonte externa da qual ela se beneficia para inundar o mundo com tamanha beleza.

Olho ao redor. Procuro não sei o quê. Será que a luminosidade humana é quem fornece a matéria luminosa para tal esplendor? Não, não creio nisso. A luz de cada um parece restringir-se a uma esfera egocêntrica, não seria capaz de tal feito. Deve ser algo altruísta, assim como a água. Algo que existe sem que precise se adequar a qualquer rótulo.

Olho para cima e o que vejo deixa-me ainda mais estarrecido! Vários de pontos luminosos! Não, MILHARES! O que será isso? Nunca vira antes! É estupendo! E parece ser o causador do brilho das águas! Incrível! Nunca imaginara, sendo um Luminus, presenciar tremenda beleza! Precisei me tornar um Obscurus para ser banhado com sensações estranhas e instigantes.

No início desta minha “condição”, pensei estar amaldiçoado. Concluo que estava errado. Sou um ser privilegiado. Sou o único, neste planeta inteiro a vislumbrá-lo em sua forma original.

“Prazer em conhecê-lo, Obscuri!”, eu digo. Com a alegria de um garoto que acaba de ganhar um brinquedo novo. 

 

Continua no Blackbird…