SEGURO, o cachorrinho

Publicado: 27 abril 2011 em Contos

Era uma vez, um pequenino cachorro,

Chamado Seguro.

Seguro, morreu de velho,

Mas aproveitou bastante a vida.

Sempre que encontrava uma cadelinha no cio,

Fazia sexo, Seguro.

Esse foi em homenagem à minha esposa que um dia desses ficou rindo freneticamente pensando no cachorrinho chamado Seguro…

3º dia

Passava da metade do dia e não havia feito nenhuma refeição. Somente bebia a água que a Deusa das Águas lhe mandara gentilmente por suas preces desesperadas. Em verdade, fazia dois dias e meio que não se alimentava. Nem sentia mais seu estômago. Lembrou-se que deveria fazer uma prece ao Deus da Caça e sair em busca de alimento, pois ainda se encontrava ali dentro daquele lugar que parecia ser o dormitório da cabana tão bem construída, de paredes tão lisas e brancas como nunca vira antes.

Procurou algo ali no quarto que pudesse lhe servir de arma. Abriu as estranhas portas marrom-mogno que ficavam em sequência. Encontrou diversas vestimentas de peles de animais que desconhecia. Depois poderia checar como funcionavam. Foi jogando tudo fora do armário, transformando o quarto num caos. Abriu as portinhas de cima, no armário, e acabou por encontrar um estranho objeto que tinha uma ponta bem fina numa extremidade e na outra fazia uma curva num cabo feito de madeira. Entre as extremidades o objeto possuía um tecido preto. Aquilo iria servir. Foi o mais próximo de um artefato para caça em todas aquelas tralhas. O engraçado é que sabia que o nome daquilo era guarda-chuva. Achou estranho que ali pudesse haver chuva armazenada. Descartou esses pensamentos e dançou freneticamente pelo quarto entoando uma canção de bravura, pedindo ao Deus da Caça que abençoasse seu dia de caçador e trouxesse fartura.

Ainda com medo de abrir a segunda porta do cômodo, partiu para a janela. Com cuidado observou-a, viu que através de vários pequeninos furos a luz do sol adentrava o ambiente. Era mais seguro sair por ali, já que estava evidente que a natureza se encontrava do lado de fora.

Alguns palavrões e acessos de raiva depois…

Abriu a janela e saltou para fora. Caiu pesado sobre o jardim em frente à casa, ainda dentro dos limites do terreno murado. O guarda-chuva seguia na mão direita como se fosse uma lança em miniatura. Observava ao redor, vendo esculturas estranhas de pequenos seres barbudos e totalmente coloridos ali no gramado. Ensaiou tocar um deles. Desistiu. Poderia trazer-lhe azar. Não sabia que tipos de feitiçarias poderiam espreitar em objetos tão excêntricos.

Continuou rodeando a casa, sempre pisando com leveza no gramado. Ao chegar aos fundos ouviu passarinhos cantando. Seu coração encheu-se de coragem. O Deus da Caça estava ao seu lado hoje, pelo menos pensou que estivesse. Ficou a observar o céu e o telhado até seus olhos encontrarem as pequenas aves. Passou um tempo a observá-las voando até pousarem no gramado e lançou o guarda-chuva com a extremidade pontiaguda em direção a um dos pássaros.

As aves pressentiram o perigo e voaram antes de serem atingidas. O guarda-chuva ao fincar-se na grama abriu-se com um som abafado. Assustou-se ao ver o objeto se abrir, as aves também, tanto que voaram para bem longe, sumindo de vista. O Deus da Caça pregara-lhe uma peça, resolvera brincar com ele.

Recolheu algumas plantas e flores que percebeu serem comestíveis, rodeou a casa fazendo o caminho inverso, despulou a janela, fechou-a e sentado na cama com as pernas em lótus, saboreou amargamente as plantas recolhidas, amaldiçoando o maldito Deus da Caça.

 

1º e 2º dias

A sede era tamanha que poderia tomar a própria urina. Passara o dia inteiro dentro do quarto com medo do pudesse haver depois das duas portas existentes no recinto. Rezou à Deusa das Águas para enviar água que aplacasse sua sede. Rezou até pegar no sono. Dormiu um sono pesadelar repleto de desertos e regiões áridas, tendo miragens com água em todos os cantos. Numa dessas visões traiçoeiras havia um objeto branco e grande preso a um piso também branco, uma espécie de jarra grande ou vaso contendo água. O calor da noite fora intenso. Acordou todo suado.

Inspirado pelo sonho abriu uma das portas que havia no quarto, descobrindo um cômodo que continha exatamente o objeto que vira no sonho. Levantou a tampa e seus olhos brilharam. Havia água lá. Água límpida e transparente. Agachou-se perante o vaso branco e fez uma prece à Deusa das Águas em agradecimento por mandar-lhe água tão pura.

Tomou tanta água quanto pôde. Era uma fonte inesgotável de água que a Deusa mandara-lhe. Sorvia e sorvia em grandes goles trazidos à boca com as mãos em concha e o nível da água nunca diminuía. Ao saciar completamente sua sede, rezou novamente à Deusa das Águas para que deixasse aquela fonte inesgotável de água límpida sempre ali para ele, para que pudesse sobreviver.